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GENEALOGISTA DISPÕE PESQUISAS NO SITE DA PROBRIG

O genealogista João Bekman Alves, estudioso da história de famílias da nossa região, dispõe seu valioso material de pesquisa em nosso site, enriquecendo nosso “baú” de informações históricas e fornecendo importantes subsídios para podermos reconstruir a nossa História a partir do século XVIII.


         Figuras referenciais para nosso estudo, como o Cap. Felizardo Antunes Cintra (fundador de Santa Maria Magdalena do Aterrado-Ibiraci) e Cap. Hipólito Antonio Pinheiro (fundador da Franca) são troncos de quase todas as relações familiares construídas a partir do século XIX. O material é de leitura agradável e compreensível, mesmo para os menos acostumados a este tipo de literatura. João Bekman vem se alinhar aos nossos colaboradores de sempre como Sonia Regina Belato de Freitas Lelis, Walter Antonio Marques Lelis, Renata Silva e outros que têm colaborado, com despreendimento, para que possamos reunir e oferecer aos pesquisadores, historiadores e cidadãos da nossa região, subsídios e informações preciosas sobre a nossa História regional. 

Baixe aqui os arquivos em arquivo .DOC (word) ou leia-os na íntegra abaixo

>> OS ALVES FERREIRA EM FRANCA
>> OS BORGES GOUVEIA EM FRANCA
>> OS GARCIA LEAL EM FRANCA




OS ALVES FERREIRA EM FRANCA

 

João Bekman Alves*

Origens
Era costume dos imigrantes portugueses, já estabelecidos no Brasil, promoverem a vinda dos parentes que permaneceram na metrópole, principalmente durante o Ciclo do Ouro nas Minas Gerais. Os Alves Ferreira são originários do termo de Guimarães, considerada o berço da nação portuguesa. Manuel Moreira de Meirelles cavaleiro da ordem de Cristo, migrou para o Brasil no início da mineração, foi vereador mais velho da Câmara de Vila Rica na legislatura de 1732, era casado com Josepha Rodrigues d’Assumpção e faleceu na Fazenda Cachoeira de Santana, freguesia de Santo Antônio da Itaverava. Violante Moreira d’Assumpção, uma de suas filhas casou com o Furriel Manuel Gomes Ferreira natural da freguesia de São Pedro de Alvite e tiveram nove filhos, entre eles Josepha Gomes Moreira que se casou na matriz de Itaverava com um parente, Antônio Alves Guimarães, vimaranense da freguesia de São Martinho de Candoso, que passou para o Brasil em companhia de seu irmão Domingos Alves Guimarães na segunda metade do século XVIII. 
Nos inventários testamentários de Manuel Gomes Ferreira e de Violante Moreira d’Assumpção conservados no Arquivo do Museu Regional de São João Del Rei encontramos na relação de bens, uma fazenda com casa assobradada, grande quantidade de escravos, animais de carga e ouro, inclusive uma imagem de N.S. da Conceição em ouro com brincos de azeviche. Essa mesma imagem consta dos bens arrolados no inventário de Antônio Alves Guimarães e Josepha  Gomes Moreira conservados no Arquivo Municipal Capitão Hipólito Antônio Pinheiro de Franca.  
Nas vésperas da Inconfidência Mineira, o Ciclo do Ouro entrava em decadência, e os irmãos Alves Guimarães com família e escravos, fugindo da derrama, deixavam as regiões auríferas em direção ao oeste procurando terras férteis; chegaram ao Arraial de Nossa Senhora do Livramento do Piumhy. Domingos se estabeleceu aí com a família, onde deixou vasta descendência. Antônio e Josepha viveram ali por alguns anos onde tiveram mais filhos e os primeiros netos.

O Sertão do Rio Pardo  
Ao longo da estrada dos Goiases, aberta pelos bandeirantes, estabeleceram-se os primeiros pousos no sertão do Rio Pardo. No início do século XIX, os entrantes mineiros, liderados pelo Capitão-mor Hipólito Antônio Pinheiro, ocupam as matas, os rios e as serras do sertão, até então do índio caiapó. Antônio Álvares Guimarães recebeu uma sesmaria de três léguas de terras “na paragem Macahúbas confrontando com o espigão que principia a freguesia”; seu filho Antônio em sociedade com José Lourenço de Paiva, tio do Padre Joaquim Martins Rodrigues, receberam também três léguas de terras na Fazenda da Prata anexas à sesmaria de Helena Maria Martins, Joaquim Ribeiro Guimarães e Ana Esméria Ribeira “acompanhando o Ribeirão Batataes rumo para o Rio Pardo”.
No dia 03 de dezembro de 1805 o Padre Joaquim Martins Rodrigues, cumprindo a Provisão de 29 de agosto do mesmo ano do Bispo de São Paulo Dom Matheus de Abreu Pereira, que criou a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Franca, benzeu o local do cemitério, e no “lugar vizinho mandou erigir uma casa de orações com a possível decência para a celebração do Santo Sacrifício da Missa”, estando presentes ao ato os doadores do patrimônio Vicente Ferreira Antunes e Antônio Antunes de Almeida;ocasião em que foi batizado pelo padre Claudio José da Cunha o filho de Antônio e Josepha: Joaquim.

 

 



OS BORGES GOUVEIA EM FRANCA

João Bekman Alves*

            I- Origens

O arquipélago dos Açores, formado por ilhas vulcânicas da cadeia meso atlântica, situadas a 760 milhas a oeste de Lisboa, foi descoberto em 1427 por Diogo de Silves, da casa do infante Dom Henrique. Constitui-se de nove ilhas: Santa Maria, São Miguel, Terceira, Graciosa, São Jorge, Pico, Corvo, Flores e Faial. Inicialmente desabitado, seu povoamento começou por volta de 1439 quando Gonçalo Velho Cabral para lá levou famílias alentejanas e algarvias e mais tarde, por influência da infanta D. Isabel, condessa de Flandres e duquesa de Borgonha, recebeu famílias flamengas. As ilhas estiveram, inicialmente, na dependência do Grão Mestre da Ordem de Cristo, sendo o sistema de colonização adotado o de capitânias hereditárias, com distribuição de sesmarias aos colonos. Esse sistema foi posteriormente transplantado para o Brasil por D. João III. O arquipélago passou ao domínio do Estado português com D. Manuel I.
Os Borges e os Gouveia são originários da Ilha de São Miguel.
Manuel Borges de Souza, filho de Manuel Vieira Borges e de sua mulher Maria Pacheco do Nascimento, nascido no lugar da Achadinha e batizado na freguesia de Nossa Senhora do Rosário da Ilha de São Miguel, casou-se na antiga Vila Rica com Rosa Maria de Gouveia batizada na freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Guarapiranga, hoje Piranga-MG, filha do açoriano Manuel Tavares de Gouveia e de Catharina Miranda de Oliveira. Foram moradores nas fraldas do morro do Padre Faria, hoje bairro da cidade de Ouro Preto-MG. Geraram oito filhos: Joaquina, Ana, Manuel, Maria Madalena, Antônio, João, Rosa e Floriana.
Com a decadência da mineração do ouro em Minas Gerais, no final do século XVIII, a família empreendeu a migração. Inicialmente para a freguesia da Senhora da Boa Viagem do Curral del-Rei, atual Belo Horizonte-MG, onde alguns dos filhos se casaram e o patriarca faleceu. Posteriormente seguiu para a região de Franca, onde ocupou o vale do Rio Canoas em ambas as margens, formando, entre outras, as seguintes fazendas: Fazenda das Canoas, Fazenda Ribeirão das Canoas, Fazenda Ribeirão da Onça, Fazenda dos Nunes, Fazenda dos Agudos, Fazenda da Bocaina, todas na Freguesia da Franca, pois nessa época a divisa das Capitanias de Minas Gerais e São Paulo passava pela Serra do Itambé.
A lista do então vigário da freguesia da Franca, Pe. Joaquim Martins Rodrigues, elaborada no ano de 1819, relaciona como moradores no bairro rural do Pouso Alegre, vários integrantes das famílias Borges de Gouveia e Freitas da Silveira, unidas por relações matrimoniais iniciadas provavelmente em Vila Rica e continuadas em Curral del-Rei e na Freguesia da Franca.

II – Descendentes

O inventário nº 04, caixa 190, do Cartório do 1º Ofício, ano de 1827, conservado no Arquivo Histórico Municipal Capitão Hipólito Antônio Pinheiro, trata dos bens deixados por Manuel Borges de Souza e por sua mulher Rosa Maria de Gouveia, ele falecido na Fazenda Ribeirão do Ouro, termo do Curral del-Rey, pelo ano de 1795; ela falecida na Vila Franca a 24/02/1826. No título de herdeiros constam os filhos:
1. Rosa Vitória de Gouveia, falecida. Foi casada com Manuel Nunes da Silva, com quem formou a Fazenda dos Nunes, atual Furna dos Garcias. Entre seus filhos, destaca-se o tenente Albino Nunes da Silva, casado na família Alves Ferreira, que também foi vereador da Câmara de Franca.
2. Ana Rosa de Gouveia viúva de João Mendes de Queiroz. Alguns de seus descendentes se casaram com descendentes de Fabiano Alves da Silveira e Anastácia Maria de Freitas (família Freitas Silveira) estabelecidos no Carmo da Franca, atual Ituverava-SP, da qual Fabiano é considerado um dos fundadores.
3. Manuel Borges de Gouveia casado com Jacinta Teixeira de Menezes. Não deixou descendência de seu casamento, apenas uma filha natural, gerada quando solteiro, de nome Cecília da Silva Oliveira;
4. João Borges de Gouveia, que não veio para Franca, já falecido na época do inventário. Apresentou-se como herdeiro seu filho Manuel Borges de Gouveia Moço.
5. Antônio Borges de Gouveia, falecido na época da abertura do inventário, representado por sua viúva Maria Joaquina de Freitas. Esse casal, com cinco de seus filhos e sete escravos, aparece como novos entrantes na lista dos habitantes da freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Franca de 1807/1808. No inventário de Antônio (nº44 - caixa 3 - 2º Ofício - ano 1828), realizado na Fazenda Ribeirão das Canoas, estão relacionados como herdeiros os filhos:
5.1. Ana Angélica de Freitas casada com o capitão José Garcia Leal. Acompanhou seu marido após a entrada de 1828 para o sertão do Mato Grosso e se estabeleceram com sua descendência em Santana do Paranaíba;
5.2. Antônio Borges de Gouveia Moço casado com Rosa Maria de Jesus;
5.3. Maria Felizarda de Freitas casada com Manuel Rodrigues da Costa;
5.4. Balbina Joaquina de Freitas casada com José Machado Diniz;
5.5. Pedro Borges de Gouveia casado, em primeiras núpcias, com Ana Rosa de Jesus, e em segundas, com Maria Antônia da Silva;
5.6. Iria Joaquina de Freitas, casada com seu primo Antônio Silvério de Freitas, deixou vasta descendência dando origem à família Silvério de Freitas. Antônio Silvério de Freitas foi vereador da Câmara de Franca.
5.7. Cândido Borges de Gouveia casado com Ana Silvéria de Freitas. Teve seu inventario realizado na Fazenda Ribeirão da Onça no ano de 1860, onde constam como herdeiros, os filhos:
5.7.1. Ana Silvéria de Freitas casada com Galdino Martins Saldanha. Galdino era filho do capitão José Garcia Leal e retornou do sertão do Mato Grosso para casar com sua prima, estabeleceram-se na Fazenda Grupiara na margem já mineira do Rio Canoas;
5.7.2. Antônio Borges de Gouveia, morador nos Agudos;
5.7.3. Christino Borges de Gouveia casado com Jesuína Maria de Jesus;
5.7.4. Maria Cândida de Freitas, solteira, 24 anos;
5.7.5. Flávio Borges de Gouveia, 32 anos, mentecapto;
5.7.6. Cândido Borges de Freitas, solteiro, 18 anos.
5.7.7. José Agostinho de Freitas casado com Maria Luísa Rodrigues Moreira, filha de Marcelino Rodrigues Moreira, neta do capitão Antônio Rodrigues de Oliveira. Foi vereador da Câmara de Franca, assim como seu sogro. Dessa união nasceram: Ana Silvéria de Freitas casada com Cândido Borges de Freitas; José Cândido de Freitas casado com Francisca Carolina de Freitas; Maria José de Freitas (Mariquinha) casada com Justino Alves Taveira; Urias Borges de Freitas casado em primeiras núpcias com Maria das Dores de Jesus, em segundas com Maria Theodora de Freitas, e, em terceiras com Claricinda América do Nascimento; Germano Borges de Freitas casado com Victória Claudina da Rocha; Christina Maria de Freitas casada com João Garcia Borges; Candido Borges de Freitas casado com Senhorinha Alves França; Maria Luiza de Freitas casada com Manoel Alves Peixoto; Marcolina Maria de Freitas casada com José de Paula Coelho; Francisco Borges de Freitas casado com Serafina Alves de Freitas, e, em segundas núpcias, com Júlia Barbosa de Freitas; Maria Cândida de Freitas (Urica) casada com Antônio Borges de Freitas (Tonico); Iria Maria de Freitas casada com José Antônio do Nascimento. José Agostinho casou-se em segundas núpcias com Maria Joaquina de Paiva, viúva de José Borges de Freitas, com quem teve as filhas: Deolinda Maria de Freitas casada com Pio Severiano da Silva e Maria Thereza de Freitas casada com João Batista Cintra.
5.8. Ignácio Borges de Freitas casado com Ambrozina Maria de Jesus, filha do tenente João Felizardo Cintra, teve os seguintes filhos: José Borges de Freitas casado com Maria Joaquina de Paiva; Maria Ignácia de Freitas casada com  Antônio Silvério de Freitas Jr. (foto1); Ana Ambrozina de Freitas casada com José Rodrigues da Costa; Antônio Borges de Gouveia casado com Maria Christina de Freitas; João Borges de Freitas casado com Maria Rita de Paiva; Maria Joaquina de Freitas casada com Joaquim Rodrigues da Costa; Francisco Borges de Freitas casado com Maria Alves de Jesus, e, em segundas núpcias, com Umbelina Maria de Jesus; Joaquim Borges de Freitas casado com Maria Alves de Paiva; Venceslau Borges de Freitas (Lau) casado com Vitalina Alves de Paiva; Vicente Borges de Freitas; Manuel Borges de Freitas (Néca) casado com Maria dos Anjos de Jesus (foto2); Maria Afra de Freitas (Mucinha) casada com Manuel Rodrigues da Costa (foto3). Ignácio também exerceu o mandato de vereador da Câmara de Franca.

            Os descendentes de Manuel Borges de Souza e de Rosa Maria de Gouveia, que permaneceram no Vale do Rio Canoas, além de ligações consangüíneas entre si e com os Freitas Silveira, uniram-se, através do matrimônio, com as famílias Cintra, Alves Taveira, Rodrigues da Costa e Garcia, entre outras.

 

*João Bekman Alves
Especialista em História do Brasil UFES
joaobekman@hotmail.com

Com a colaboração da pesquisadora Sônia Regina Belato de Freitas Lelis

 

 



OS GARCIA LEAL EM FRANCA

João Bekman Alves
            I - Decadência do Ciclo do Ouro em Minas
            No final do século XVIII a mineração entrou em decadência nas Minas Gerais, gerando enorme crise social com a ruína econômica e desestabilização das instituições públicas. Grande parte da população ligada à mineração procurou alternativas de subsistência nas atividades agropecuárias, buscando para isto, terras propícias, como as paulistas, no Sertão do Rio Pardo, este fato liga-se diretamente à criação da freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Franca em 1805, visto que o pedido de criação da freguesia foi efetuado pelos entrantes mineiros. Já a degradação dos poderes judiciários propiciou o aparecimento da justiça privada exercida pelos capitães, cujo exemplo mais conspícuo no Sul de Minas foi o de Januário Garcia, o “Sete-Orelhas”.
Os Garcia Leal, como grande parte das famílias mineiras são originários do Arquipélago dos Açores, “essa gente ordeira, laboriosa, prolífera, antes ilhada nos Açores, não encontraria limites para sua expansão em terras brasileiras. Unindo seu nome ao dos paulistas que povoaram as Minas Gerais, transformaram-se em novos bandeirantes . Deve-se aos açorianos, tradições como: as festas do divino, as folias de reis, trouxeram também as rodas de fiar, os teares, o carro de boi e ainda os doces caseiros . A Família Garcia Leal distribuiu-se por quase todo Sudeste do Brasil, principalmente nos estados de Minas Gerais, São Paulo, Paraná,  Mato Grosso do Sul e Goiás.
II – Ilha do Faial – Arquipélago dos Açores
Na ilha do Faial nasceu em 1679, João Garcia Pinheiro, que se casou com Maria Leal; este casal teve vários filhos que os acompanharam na sua migração para o Brasil, sendo que o filho caçula Pedro Garcia Leal nascido por volta de 1722 casou-se em Mogy-Guaçu bispado de São Paulo com Josepha Cordeyro Borba do clã dos Borba Gato. Os descendentes desses consortes constituem o ramo Garcia Leal.
Pedro Garcia Leal estabeleceu com esposa e filhos menores nas indecisas divisas de Minas e São Paulo no antigo caminho da Estrada dos Goiazes, onde dava assistência como negociante às expedições de conquista, havendo registros de assentos religiosos com seu nome contemporaneamente ao de Pedro Franco Quaresma e Bartolomeu Bueno do Prado, sertanistas paulistas desbravadores do Sertão do Jacuy. Nesse itinerário nasceram mais alguns de seus filhos - em Santa Cruz de Goiazes foi batizado em 1759 seu filho João Garcia Leal. Pedro Garcia Leal foi proprietário da Fazenda Talhados às margens do Rio Grande, aí provavelmente nasceu o filho Januário Garcia Leal por volta de 1761 (os registros da freguesia de Jacuy só começam a partir de 1764) .Pedro Garcia Leal foi casado em segundas núpcias com Maria dos Anjos não sendo conhecida descendência dessa união, faleceu em 1780 no arraial do Jacuy .
Os irmãos João Garcia Leal e Januário Garcia Leal se estabeleceram como fazendeiros em Lavras do Funil no Sul de Minas. O alferes João Garcia Leal contraiu matrimônio em 1783 com Maria Joaquina do Espírito Santo filha de Nicolau Martins Saldanha e Inácia Maria de Barros, pessoas influentes na região, tiveram os filhos Eufrásia (falecida em Franca em 1820), José Garcia Leal, Januário Garcia Leal(sobrinho), João Pedro Garcia Leal e Joaquim Garcia Leal. Januário Garcia Leal (tio) foi casado com Mariana Lourença de Oliveira, recebeu patente de capitão de ordenanças do distrito de São José e Nossa Senhora das Dores (atual Varginha) em 1802.
III – A Vingança de Januário Garcia
Data de pouco depois desta nomeação o cruel assassinato de seu irmão João Garcia Leal, ocasionado por desentendimentos sobre divisas de fazendas, o qual foi despelado na figueira do Tira Couro próximo à igreja de São Bento Abade, distrito de Lavras.
Januário Garcia Leal prometeu vingança diante do corpo desfigurado do irmão, antes, procurou os representantes da lei na Comarca do Rio das Mortes, em São João D’el Rey, a qual, a freguesia de Lavras era subordinada. As autoridades alegaram falta de recursos e meios para aplicar a lei e deixaram em suas mãos o destino dos criminosos. Januário partiu no encalço dos homicidas e não descansou enquanto não completou um rosário de sete orelhas, o qual foi apresentado publicamente pendurado ao pescoço nas vilas e povoados por onde andou, segundo representações existentes nos arquivos em Portugal.
Januário Garcia Leal teve o auxilio de seu irmão Salvador Garcia Leal e seu primo Mateus Luis Garcia nessas empreitadas; segundo Marcos Paulo de Souza Miranda , vigia em grande parte de Minas Gerais, uma jurisdição privada, exercida ao arrepio da lei e a revelia das autoridades portuguesas, abrangendo a região de São João D’el Rey, Campanha e Itapecerica, nela, os Garcia aplicaram a justiça pelas próprias mãos. Segundo alguns autores os feitos de Januário Garcia Leal superam os cometidos por Lampião mais de um século depois.
O conselho Ultramarino expediu aos governadores das Capitanias de São Paulo e Minas ordens de prisão contra os Garcia, sendo que Salvador Garcia Leal chegou a ser preso, mas em seguida foi libertado. Depois disso Januário viveu algum tempo na sua propriedade na freguesia de Jacuy, Fazenda Ventania (Alpinópolis), que foi vendida em 1806 por sua esposa, a seu pedido, para saldar dívidas feitas com parentes no decorrer das perseguições que fez aos assassinos.
Pesquisas históricas recentes descobriram o inventário de Januário Garcia Leal no Museu do Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Este documento esclarece que Januário vivia como negociante de tropas e faleceu no local denominado Lava Tudo em Lages SC em 16/05/1808, quando em companhia de um escravo tentava cercar um cavalo bravo. Anexos ao inventário: a carta patente de seu posto de capitão e procurações de sua mulher Mariana Lourença de Oliveira para o filho Higino Garcia Leal, e o sobrinho João Pedro Garcia além do exame do corpo de delito que diz: ‘indo sercar hum cavallo que se axaiva  a pular hua porteira de varas, o cavallo avançou a dita porteira e encontrou o Capitam hua das varas da porteira  e dando-lhe pela orelha direita imediatamente o matou com a pancada’.
IV – Os Descendentes de João Garcia Leal em Franca   
A viúva de João Garcia Leal, Maria Joaquina do Espírito Santo morava na freguesia de Jacuy em 1805, onde ela e seu filho João Pedro Garcia Leal foram padrinhos de uma criança chamada Maria, nos últimos anos morou em Franca onde faleceu em 03/09/1812.
Os filhos de João Garcia Leal residiram em Franca. No livro de casamentos da matriz local constam os casamentos de José Garcia Leal com Ana Angélica de Freitas em 30/10/1809; Salvador Garcia Leal com Maria Prudência da Paixão em 14/02/1820 e Januário Garcia Leal viúvo de Claudina Maria de Jesus com sua cunhada Ludovina em 29/08/1822. Nos maços de população de Mogi Mirim e Franca constam os nomes de José Garcia Leal, João Pedro Garcia Leal e Salvador Garcia Leal; Também na lista elaborada pelo vigário Joaquim Martins Rodrigues para o Governador da Capitania de São Paulo João Carlos Augusto Oeynhausen em 1819 aparecem os ditos nomes. Cumpre notar que Salvador Garcia Leal era filho natural de Leonor Theodora de Jesus, não se conhecendo seu parentesco com a família Garcia Leal, faleceu em 1832 em Franca onde foi inventariado. Quanto ao outro irmão Joaquim Garcia Leal, este, fixou residência no arraial da Cana Verde (Batatais).
Nos livros de batizados da Matriz de Franca existe vários assentos de filhos dos irmãos Garcia Leal, inclusive um de nome diferente Galdino Martins Saldanha (homenagem à seu bisavô materno) nascido em 1821 filho do capitão José Garcia Leal e Ana Angélica de Freitas.
V – A Entrada para o Sertão do Mato Grosso
Homem de ânimo decidido, empreendedor e inteligente, José Garcia Leal exercia enorme influência sobre a família; em 1820 vendeu a Fazenda São Joaquim e na companhia de seus irmãos; familiares; integrantes das famílias Barbosa e Lopes ; agregados e escravos empreenderam a célebre entrada de 1828 em direção ao Sertão do Mato Grosso.
A medida que avançavam no sertão fundavam posses: José Garcia Leal se fixou nas fazendas Barra e Córrego Fundo, Januário na Fazenda Barreiro e Joaquim no Ariranha, pelos fins de 1831 foi iniciada a povoação de Santana do Paranaíba onde foi levantada a primeira igreja sob a invocação de Nossa Senhora de Santana, cuja imagem foi ofertada por Dona Ana Angélica de Freitas.
Os francanos no final do século XIX ocupavam todo o vácuo sul matogrossense, que tomou o nome de Sertão dos Garcia, e abrangia as bacias dos rios Barreiros, Santana, Quitéria, Sucuriú, Verde e Pardo afluentes da margem direita do Rio Paraná.
O capitão José Garcia Leal foi nomeado diretor da povoação de Santana do Paranaíba em 1836, sendo que o comando político da região esteve sobe seu poder até sua morte em1862, passando para seu filho Manuel Garcia da Silveira Leal que governou até 1891, segundo Hildebrando Campestrini na sua obra Santana do Paranaíba , enquanto esteve sob a liderança do capitão e seu filho Paranaíba desenvolveu-se em ordem.
Há notícias que Joaquim Garcia Leal retornou para as terras paulistas fixando-se em Batatais donde havia partido.
VI – Retorno de parte dos Garcia Leal para Franca
Para Franca retornou o filho do capitão José Garcia Leal, Galdino Martins Saldanha, que aí, contraiu núpcias com sua parente Ana Silvéria de Freitas em 03/07/1856. Galdino fixou residência na Fazenda Grupiara nas margens do Rio Canoas, próximo ao Garimpo das Canoas (Claraval), sendo mais tarde conhecido com Galdino Garcia Borges, faleceu em 04/01/1874.
A descendência de Galdino Garcia Borges já atingiu mais de 600 pessoas grande parte ainda vivas e residentes em Franca. Foram seus filhos: João Garcia Borges (*1860+1937), morou na Furna dos Garcia deixou 10 filhos; José Garcia Borges (*1859+1944), morou no Garimpo das Canoas depois em Franca deixou 12 filhos; Francisco Garcia Borges(*1866+1911) morou na Chácara Ponte Preta em Franca, deixou 6 filhos ( 2 filhas migraram para Goiás); Simpliciano Garcia Borges(*1869+1929), deixou 8 filhas e Ana Silvéria de Freitas (Ana Galdina) que nasceu em 1866, morou em Franca e teve apenas uma filha.

Segundo José Teixeira de Meirelles Januário Garcia Leal dedicou a vida defendendo a mais nobre das instituições humanas, a família. Ainda hoje, depois de mais de 200 anos dos fatídicos acontecimentos os membros da família Garcia Leal relembram suas façanhas, olvidadas pela história, principalmente nas noites de serões das antigas fazendas.

Guimarães, José . As Tres, Ilhoas, v.I, p.114-115

Garcia, Denise Cássia. Os Garcia Frade, p. 07.

Miranda, Marcos Paulo de Souza, Jurisdição dos Capitães, p.49

Miranda. Op.cit.,p.36.

Miranda, Op. Cit.

autor do livro Jurisdição dos Capitães, A história de Januário Garcia Leal, o Sete Orelhas, e seu bando,
 a publicação melhor documentada sobre a vida de Januário Garcia Leal.

Lopes, José Iglair. História de Alpinópolis.Belo Horizonte, 2002.

Miranda, Op. Cit. p. 46.

Archivo Parochial-Franca 1806/1824.

lista da 1ª Cia de Franca 1815-APESP.

Apud Miranda, Marcos Paulo de Souza, Jurisdição dos Capitães, p.40

Entre eles Joaquim Francisco Lopes, irmão do Guia Lopes da Laguna, que deixou uma descrição da expedição publicada no Boletim do Departamento do Arquivo do Estado de São Paulo, vol.III, 1943

Nessa obra o capítulo IV é dedicado ao capitão José Garcia Leal

Meirelles, José Teixeira, A vida de Januário Garcia , o Sete Orelhas,