A história de Ibiraci
Os primeiros registros documentais da nossa cidade de Ibirací são, até o momento, os mapas e relatos de viagens de meados do século XVIII. A definição da fronteira sul da Capitania de Goiás, com a de São Paulo e a de Minas Gerais, dava-se num acidente geográfico inconfundível : o Desemboque do rio Grande ou Paraná. Neste ponto único em todo o percurso do rio, este se estreitava numa pequena garganta com pouco mais de dez metros e a partir daí percorria cerca de 10 léguas entre paredões rochosos com 300 ms de altura.
Este lugar tornou-se uma referência segura para todas as expedições que abriam as “picadas militares” quase sempre sobre as trilhas indígenas que teciam uma rede de comunicação no entorno da bacia do rio Grande, oferecendo à esta época possibilidades de exploração dos garimpos goianos, dos novos descobertos do Desemboque e de descaminho e fuga das rotas dos registros da região. Importante lembrar que nesta época o atual Desemboque (distrito de Sacramento), chamava-se Julgado de Nossa Senhora do Desterro das Cabeceiras do Rio das Abelhas, só aparecendo na cartografia como Desemboque na virada do século.
A Capitania de Minas Gerais, já nesta época ( por volta de 1750), fazia esforços para incorporar a área sul da Capitania de Goiás até a margem direita do rio Pardo. Com o enfraquecimento e desaparecimento da Capitania de São Paulo (entre 1748 a 1765), os mineiros ainda enfrentaram a oposição do Bispado de São Paulo que reafirmava sua posse na região do Desemboque (1761) e a presença de sertanistas paulistas experientes e influentes na área como Pedro Franco Quaresma.
Apesar de que a Linha Tomaz Rubin (1749) determinasse a divisa entre Minas Gerais e São Paulo desde o Morro do Lopo, por cordilheiras não muito conhecidas “até topar com o rio Grande”, no ponto Desemboque, a posse mineira da região se efetivou apenas em 1764 com a expedição do Governador mineiro Luis Diogo Lobo da Silva, que anexou à Capitania de Minas : “... de Jacuhy até o sítio chamado Desemboque...”(1)
A partir daí, várias expedições de “limpeza” foram enviadas à região para expulsar e dizimar garimpeiros “vadios” e quilombolas.
Grandes expedições, como as de Inácio Correa de Pamplona, enviavam agrupamentos menores em missões pontuais para dizimar povoados e arraiais que se formavam nas faisqueiras recém descobertas. (2)
Para a história de Ibiraci é relevante saber que no ponto Desemboque, à margem esquerda do rio Grande (onde hoje está a Usina Mal.Mascarenhas de Moraes, antiga Peixoto), existia um povoado que é referido em mapas (3) e documentos (4), até o seu último registro num mapa de 1782 (5). A partir daí, o que pode ser resultado de uma ação de extermínio ou “limpeza”, passamos a encontrar um povoado na parte alta do nosso município (onde hoje se localiza a cidade) com o nome de Aterrado. Este povoado localizava-se na parte paulista (aquém da Linha Luiz Diogo Lobo, ou a Serra do Itambé) e ficava às margens do Ribeirão do Oiro, cujas lavras, identificadas em mapa por volta de 1760, atestam a época dos primeiros garimpeiros na região. Por esta época, o termo “aterrado” era comumente usado para definir os indivíduos expulsos de suas lavras pelos mineiros e equivale a assustado ou aterrorizado (6).
O povoado do Aterrado pertenceu a Mogi Mirim, até a criação da Vila Franca em 1805. O Cap. Hipólito Antonio Pinheiro, ao encaminhar ofício ao Governador paulista Antonio José da Franca e Horta e pedir autorização para fundar Franca, pede também autorização para construir um Quartel de guardas no Aterrado e outro na Lagoa Rica, para deter os mineiros em sua intenção de avançar sobre a capitania de São Paulo (7).
O Quartel do Aterrado, situado uma légua a leste do povoado ficou posicionado exatamente sobre uma linha imaginária que liga o Morro Selado ao Desemboque no rio Grande, conforme a divisa que prevalecia então. Os mineiros, dois anos depois, também fizeram um aquartelamento de homens a menos de um quilômetro de distância e ambos ficaram durante 9 anos em vertentes opostas com controle visual um do outro (o local se chama Fazenda Quartéis). Em 12 de janeiro de 1816, contudo, forças mineiras “deitaram abaixo” o Quartel paulista do Aterrado e avançaram 5 léguas dentro da Capitania de São Paulo, colocando os marcos na margem do rio Canoas. A ação, atribuída à Câmara de Jacuí, tinha o claro respaldo do Governador mineiro, Dom Manoel de Portugal e Castro, ainda que este não o admitisse na época, e do próprio Rei, como se observa na Carta Patente do Cap. Felizardo Antunes Cintra, Capitão de Ordenanças que comandou um pequeno exército de 60 soldados mais seus oficiais com a missão de ocupar o Distrito do Aterrado, o que o fez até sua morte em 1842, com uma credencial especial : “... enquanto eu (o Governador) o houver por bem e o Mesmo Senhor ( o Rei) não mandar o contrário”. (8)
O Conde de Palma (Francisco de Assis Mascarenhas), governador da Capitania de São Paulo, que havia negado um aumento na guarda do Quartel solicitado pelo Cap. Hipólito, um mês antes da ocupação, não autoriza uma retaliação por parte de Mogi Mirim ou de Franca e encarece as ações políticas, mantendo rica correspondência sobre o assunto com D.Manoel. Na verdade nada se modificou e o Aterrado que a Câmara de Franca reclama durante mais de 80 anos se tornou mineiro definitivamente. Se houve a necessidade de uma ação armada no Aterrado, no dia 04 de abril do mesmo ano, um Alvará Régio incorporou sem lutas, o sul de Goiás a Minas, transformando-o no Triângulo Mineiro. Percebe-se que se tratava de uma estratégia da Coroa para definir as fronteiras da Capitania de Minas, única que de fato tinha um sistema de arrecadação eficaz para controlar os novos descobertos da região.
O Capitão Felizardo Antunes Cintra, a partir da ocupação em 12 de janeiro de 1816, busca conseguir a Provisão Eclesial para a ereção da Capela. Como a área permanecia eclesiasticamente ligada ao Bispado de São Paulo, iniciou uma correspondência entre 1817 e 1824 com o Bispo Dom Matheus de Abreu Pereira, até que no dia 01 de outubro de 1824 foi celebrada a primeira missa na Capela de Santa Maria Magdalena do Aterrado e abençoado seu primeiro cemitério.
Em 1832, na lista de povoamento, o Capitão Felizardo figurava como o Juiz de Paz do Distrito.
Pelo seu empenho em erigir a Capela do Aterrado, para cumprir as ordens de ocupação e pelos 26 anos que permaneceu no comando do local, até sua morte, o Capitão Felizardo Antunes Cintra pode ser considerado o fundador de Santa Maria Magdalena do Aterrado.
Em 28 de junho de 1850, com a mudança da padroeira (de Santa Maria Magdalena para Nossa Senhora das Dores), acontece a elevação a Freguezia pelo Parágrafo 2º do artigo 1º da Lei no 497.
A partir de 1.816 o Distrito passou a pertencer a Jacui, até a instalação da Câmara de Passos, em 1.850 quando foi eleito vereador do Distrito o Padre Fortunato José da Costa.
Foi incorporado ao município de São Sebastião do Paraíso por Lei no 2.784 de 22 de setembro de 1.881.
Foi incorporado ao município de Santa Rita de Cássia por Dec.no 21 de 26 de fevereiro de 1.890.
Foi elevado a município com o nome de Ibiracy, por lei no 843 de 07 de setembro de 1.923, compreendendo os distritos da sede e Garimpo das Canoas (atual Claraval), o qual perde em 1.953.
No dia 09 de agosto de 1.936 foi instalado o 1º Governo Municipal de Ibiracy que oficializou o Cel. Temóteo Joaquim de Andrade como o primeiro Prefeito Municipal para o período 1.936/1.940.
É instalada a Comarca de Ibiraci em 15 de novembro de 1.948.
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- Docs.Ints. – Vol. XI – pág 72
- Revista do Arq.Publico Mineiro – “Questões de limites entre os estados de Minas e Goiás” – pág.817/818
- Mapa dos caminhos a partir de São Paulo, para Minas Gerais e Goyaz. 1780 – Inst.Est.Brasileiros - USP

4. Docs.Ints.- Vol. XI – pág. 66
5.
Mapa da Conquista – 1784 – Arq.Historico Ultramarino (Lisboa)

6. Tomo Especial VI da Revista do IHGB – 1957 – págs.276-277
7.
Docs.Ints. – Vol. XI – pág.453
8.
Carta Patente do Cap.Felizardo Antunes Cintra – Arq.Público Mineiro SC- 371,fls.89v e 90.
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